14 maio 2021

Mulher aos 40


Não é fácil ser mulher e muito menos chegar aos 40 anos. Somos criadas sempre incentivadas a sermos uma mulher bem-sucedida. Casar, ter filhos e manter uma carreira próspera e nunca desistir dos nossos objetivos. Tudo isso é lindo na imaginação, em livros ou novelas, mas na vida real não é tão perfeito assim, parece mais um drama. Na adolescência sonhamos tanto e nunca imaginamos que um dia a nossa vida não chegaria a ser como idealizamos. Estudamos, trabalhamos, nos dedicamos ao máximo. Sofremos humilhações e assédio nas empresas, tudo para mantermos nosso sonho. Crescemos, aprendemos com tudo isso. Até chegamos a conquistar autonomia no trabalho. Mas e o sonho de casar e ter filhos? Não abandonamos. Quando casamos, pensamos que realizamos o maior sonha da nossa vida. Conquista que é dada à poucos, pelo contrário, a maioria chega a encontrar alguém para chamar de seu, mas até quando poderá chamar assim? Talvez por toda vida. E os filhos? Ah, os filhos, quem não deseja? O tempo passa e o sonho permanece, mas a cada dia uma tristeza. Eles não vieram e agora? Não está em minhas mãos. Será que estou sendo castigada? Mas isso não pode ser castigo, todos somos amados e uma graça divina é dada a todo filho, mesmo sendo muito pecador. Eu não teria cometido pecado tão cruel para receber tão grande castigo. Seria um erro da natureza? Talvez seja essa a resposta, mas logo eu que tanto desejo ter um filho? É, a natureza não escolhe. 

  

Não tendo filhos, me resta um marido e um trabalho. Ótimo, sou uma mulher realizada! 

  

Os anos passam e aquela dedicação vai por água abaixo, todo estudo e dedicação ao trabalho, hoje não valem de nada. Perdi o que mais me trazia autonomia e me tornava mulher independente. Não tenho mais ocupação, não sei mais o motivo que me levanto pela manhã. Só para me sentir viva? Talvez seja só para isso e para servir de alento a quem precisa de mim. Quem precisa de mim hoje? Meus filhos. Que filhos? Há, meu marido? Sim, só ele, os outros não precisa de mim, ou precisam? Às vezes alguns me pedem ajuda, coisa rara, mas acontece. Mas precisar mesmo só meu marido, mas para quê? Acho que para fazer arroz ou para não se sentir só. Ainda bem que tem essa última possibilidade, a que me deixa menos triste. 

  

Mas vamos lá! 

  

O que me restou além de ser companhia para meu marido e quebra-galho de um ou outro. Me restou a função de dona de casa. Algo que eu nunca gostei e nunca sonhei, mas assim como não temos o que tanto sonhamos, temos também algo que nunca queremos. Será o preço que pagamos para uma das coisas que desejamos? O tão sonhado marido! 

  

Valeu a pena? Valeu, só esqueceram de avisar que estamos sujeitos a perder o que conquistamos, no meu caso minha carreira, em outros casos o marido. Que raio de vida é essa que vivemos ganhando e perdendo. Jogo é pecado, é coisa de azar. Mas é nele que ganhamos e perdemos. Então a vida é um jogo e quem não sabe jogar ou não tem sorte, vai perder mais que ganhar? Quem terá uma explicação que faça sentido, que tenha lógica, pois essa ideia que tudo tem sua hora certa me enche, se tem hora para conseguir, tem hora para perder. Não deveria ser assim, você luta, consegue e teria que ter aquilo para você. Não conquistou, beleza, não era para você mesmo. Tudo que você conseguiu e ama, não deveria ser tirada de você antes da morte. 
 
Se tudo isso é a tal da crise dos 40, te digo que as mulheres já nascem condenadas a viver um martírio nesta fase da vida. Mas será que todas vivem essa fase assim? Creio que algumas delas não pedem nada, só ganham, tem marido, filhos, trabalho e muita saúde e melhor, a felicidade! 
 
A sociedade é culpada por isso? Os governantes não olham para essas mulheres? Se preocupam com aquelas que estão com a casa cheia de filhos, que trabalham e que tem maridos? Não sei, pode ser. E tem motivos para os governantes olharem? Com muitas coisas ruins acontecendo no mundo, tanta gente doente, tanta fome e miséria, seria até hipocrisia cuidar de uma mulher adulta com saúde (talvez só física), com uma casa e um marido para lhe sustentar. Essa mulher não precisa de nada mais para ser feliz, nem filho tem para se preocupar. É por essa ótica que todos analisam a vida de uma mulher madura. Não sabem eles que a desesperança que é vivida por essa mulher é bem maior que tudo que ela teve que passar quando estava iniciando sua vida adulta. Escolhas e toda correria que teve no início da vida adulta é maravilhosa, são só expectativas, são amigos apoiando, família pensado nos objetivos que esta mulher precisa alcançar. Tudo é lindo, só oportunidades e dedicação de todos ao seu redor. Chega aos 40 e tudo isso acaba. Ela já sabe se virar sozinha, ela já é madura, não sofre com nada, aprendeu a viver. Pelo contrário, é a fase que mais ela precisa de apoio. É nesta fase que sua vida desmorona e ela se ver sem ninguém para se apoiar. 
 
Acolha uma mulher de 40! 

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